10.07.26 | Segurança em RM | Fís. Brenda Candeia, Fís. Matheus Telka e Fís. Alessandro Mazzola | Tempo de leitura aproximado:
Cabelo Molhado na RM: Existe realmente risco?
O que as referências internacionais e literatura nos dizem sobre esse assunto? Confira abaixo conosco.
Eventos adversos de origem térmica são os mais frequentemente relatados em Ressonância Magnética (RM). Esses tipos de evento em RM são preveníveis e as medidas para evitar sua ocorrência são amplamente estudadas, entretanto, as recomendações de segurança podem ser variadas e, até mesmo, confusas. Um tema que gera bastante dúvida é a realização de exames de RM em pacientes com cabelos molhados.
O aquecimento em RM pode ser causado, principalmente: (a) pela deposição da energia de radiofrequência (RF) nos tecidos do paciente, (b) por correntes parasitas (eddy currents ou correntes de Foucault), (c) pelo contato da pele do paciente com um material eletricamente condutor, com a própria pele (criando laços condutores de corrente) e/ou com as paredes internas do equipamento.
É importante ressaltar que o campo elétrico induzido pelo campo de RF (B1) é responsável por quase todos os efeitos térmicos gerados pela RF na RM. O campo elétrico deposita energia nos tecidos por meio, basicamente, de perdas resistivas (mais significativas em RM) e dielétricas de calor, e isso é importante para entendermos o papel da água nos mecanismos de aquecimento.
- A água pura não conduz eletricidade. A condutividade elétrica da água, isto é, sua capacidade de conduzir corrente elétrica, depende diretamente da quantidade de íons nela dissolvidos.
Mesmo que a água por si só não seja um bom condutor elétrico, os tecidos biológicos conduzem corrente elétrica de maneira razoável.
A temperatura ambiente, o fluxo de ar, as roupas e a umidade desempenham um papel importante na taxa de dissipação de calor do corpo do paciente, interferindo diretamente no risco de queimadura.
- A pele humana possui uma condutividade elétrica baixa, entretanto, pontos de contato podem gerar loops condutores intensificando a deposição local de RF. Se houver indução de corrente significativa em pontos de contato de alta resistência, onde a energia é dissipada na forma de calor, há risco de queimaduras ocorrerem.
Os riscos de queimadura relacionados ao contato pele com pele do paciente podem ser agravados pelo suor e pela urina, que possuem condutividade elétrica elevada em comparação com a água. Observe a Tabela 1 que contém as constantes de condutividade de alguns tecidos do corpo humano.

- O cabelo humano possui alta resistência elétrica (ou seja, é um isolante) e, portanto, dissipa bastante energia em forma de calor ao se opor à passagem de corrente elétrica. Entretanto, o aumento da umidade no cabelo reduz sua resistência elétrica, elevando a condutividade da superfície das fibras capilares e tornando-as um sistema mais condutor de eletricidade.
Embora passem a ser melhores condutores de eletricidade, a drástica redução da resistência dos fios capilares quando úmidos faz com que dissipem menos calor.
Exames de RM não devem ser realizados em pacientes com cabelo molhado?
Por precaução, cabelos extremamente molhados, a ponto de deixarem um pano umedecido, devem ser evitados em RM. A penetração de água no equipamento pode gerar danos aos componentes eletrônicos do sistema e/ou causar artefatos nas imagens. Entretanto, cancelar um exame porque o(a) paciente está apenas com o cabelo úmido pode ser uma medida extrema e desnecessária devido ao fato de os riscos de queimaduras por RF relacionados à umidade do cabelo do paciente serem mínimos. As causas mais frequentes de queimaduras em RM são apresentadas na Tabela 2.

- O excesso de água no cabelo do paciente pode gerar danos ao equipamento. As bobinas de recepção contêm componentes eletrônicos que podem ser danificados ao entrarem em contato com a água. Pode haver corrosão de componentes ou condensação de água em módulos elétricos e eletrônicos afetando seu funcionamento e, em casos mais graves, danificando o equipamento de RM. A penetração de água ou de outros líquidos no equipamento também pode causar curtos-circuitos.
- Artefatos. A umidade elevada pode causar interferências de radiofrequência, afetando a qualidade das imagens. Lembre-se de que os prótons de hidrogênio das moléculas de água alinham-se ao campo magnético estático da RM e emitem sinal ao serem submetidos aos pulsos de RF. Isso significa que a presença de água no cabelo do paciente pode representar artefatos nas imagens caso a região imageada esteja próxima à região capilar.
Segundo a revisão sistemática de Baker et al., de 2024, as principais recomendações para evitar queimaduras causadas pela RF em RM são: a comunicação constante com o paciente durante o exame, a remoção de itens eletricamente condutores e a utilização de espumas próprias para o isolamento das partes do corpo do paciente para prevenir a formação de laços condutores no paciente e/ou o contato com objetos e com as paredes internas do equipamento. A Tabela 3 apresenta os principais itens relacionados aos eventos adversos de origem térmica em RM.

Embora as bobinas de RF de transmissão local possam ser utilizadas (por exemplo para imagens de cabeça, e joelho), a maior parte da RF transmitida em RM é proveniente da bobina de transmissão de RF de corpo inteiro, que não se estende por todo o comprimento do equipamento, de forma a transmitir RF mais uniformemente em seu isocentro. A potência de RF transmitida diminui significativamente à medida que se afasta do isocentro sendo, entretanto, muito intensa nas proximidades das paredes do equipamento, em locais imediatamente adjacentes às bobinas. “Pontos quentes” ocorrem ao redor de toda a periferia do magneto, de modo que um paciente cuja parte do corpo toque ou se aproxime das paredes internas do equipamento corre maior risco de sofrer queimaduras. Da mesma forma, correntes elétricas induzidas em fios ou cabos que passam pelos pontos quentes são mais prováveis de ocorrer.
De acordo com o posicionamento do paciente, mais ou menos volume corporal pode estar submetido à RF emitida pela bobina de transmissão de corpo inteiro. Caso a cabeça do paciente não precise ser posicionada dentro do bore do equipamento, por exemplo, o cabelo não estará exposto à RF transmitida, por exemplo.

Alguns fatores representam riscos maiores do que a umidade dos fios capilares por si só. Produtos para cabelo, como shampoo ou tinturas, podem conter metais que podem prejudicar as imagens de RM (Figura 5). Alguns metais presentes em produtos capilares podem causar queimaduras no couro cabeludo durante o exame. A maioria dos produtos para cabelo contém compostos metálicos como alumínio, cobre, magnésio, zinco, etc. Isso inclui gel para cabelo, spray fixador, tinturas, óleos, shampoo seco, entre outros. A Tabela 4 apresenta os dados do estudo de Alorainy et al. sobre artefatos em RM devido a cosméticos capilares.


Portanto, a umidade do cabelo de um paciente não, necessariamente, contraindica o exame. Deve-se sempre adotar medidas que garantam a máxima segurança do exame de RM, entretanto, também é importante reforçar que, em muitos casos, a não realização do procedimento pode ser prejudicial ao paciente, de modo que entender os riscos é fundamental para não gerar cancelamentos desnecessários.
Como forma de prevenção aos possiveis riscos e cancelamentos desnecessários do exame, a instituição pode adotar o protocolo de secagem do cabelo in-loco com o auxílio de um secador de cabelo disponibilizado no vestiário ou banheiro da área de preparo do paciente, normalmente na zona II do setor de RM.

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